• Bem, decidi criar uma série de vídeos no meu Instagram e TikTok para expor alguns pensamentos e reflexões que tenho sobre a vida… A série vai se chamar rascunhos e pretendo lançar pelo menos 9 vídeos curtos testando formatos e temas diferentes. Eles serão lançados nas sextas e na segunda seguinte um post por aqui para estender um pouco as reflexões dele. Topa embarcar nessa comigo?

    Esse segundo rascunho, chamado de (In)utilidade, propõe uma reflexão sobre algo que está muito presente no mundo atual: a cobrança por produtividade, resultados e progressão em todos os aspectos da nossa vida e se esquecendo de apenas viver.

    A vida parece ter se tornado uma lista de metas que precisam ser atingidas. Temos que bater as metas de calorias, leitura, movimento, água… É como se agora fossemos mais um recurso que precisa ser explorado ao máximo para ter os melhores resultados.

    Por conta disso, tudo agora precisa ser um meio para um fim. Um hobby não precisa simplesmente existir pelo prazer de fazer, ele precisa virar dinheiro ou te “desenvolver” de alguma forma. Um namoro não é para ser vivido, mas um caminho direto até o casamento. Uma amizade não vale a pena por si só, precisa ter network, contatos úteis.

    Até o lazer virou produtivo: se você tira férias, melhor fazer algo Instagram-worthy, né? (ou talvez nem poste nas redes sociais, que isso também virou trabalho rs)

    Mas espera, tem algum grupo de acionistas que você precisa prestar conta? Quem exatamente está cobrando dividendos da sua vida?

    A verdade é que não tem ninguém além do seu ego te cobrando tanto. Ele incorporou a lógica da financeirização da vida e agora é como se você nunca pudesse parar de crescer. Precisa sempre ser melhor para ter mais que antes, como se fosse uma startup em busca de investimento Series A infinito.

    Mas a linha de chegada da vida a gente já conhece: a morte.

    “A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade a ela, mas isso é uma besteira. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária.”

    Essa é uma frase de Ailton Krenak, um filósofo e ativista indígena que traz uma ótica ancestral para questões da nossa sociedade “moderna”. Ele é autor de diversos livros importantes como “Ideias para adiar o fim do mundo” e “A vida não é útil”, onde questiona profundamente a maneira como a sociedade ocidental moderna trata a existência.

    Perceba a profundidade dessa metáfora: dança vs coreografia.

    A dança é livre, espontânea, fruição pura… Você se move pelo prazer de se mover, sem objetivo além do próprio movimento. Já a coreografia é planejada, utilitária, com passos predefinidos para alcançar um resultado específico (a apresentação perfeita, o aplauso do público).

    Krenak está dizendo que transformamos a vida, essa experiência vasta, imprevisível e maravilhosa, em uma sequência de passos mecânicos que precisam “servir para algo”. E nisso, perdemos a essência: a vida não precisa de um “porquê” para valer a pena.​

    Mas por que isso acontece?

    Esse fenômeno tem raízes profundas no modo como nossa sociedade se estruturou. Vivemos num sistema onde a produtividade virou o valor supremo, onde cada minuto precisa ser otimizado, onde “tempo é dinheiro” deixou de ser metáfora para virar mandamento.

    O capitalismo financeiro descobriu algo genial: ele não precisa de um chefe te vigiando. Você mesmo se vigia, se cobra, se explora. E o pior? Você acredita que está “investindo em si mesmo”. Que está “se desenvolvendo”. Que está “crescendo”.

    Mas crescer pra quê? Para quem?

    Toda essa corrida por MAIS está fazendo você deixar de apreciar a paisagem do caminho que está caminhando, fazendo você olhar apenas para o motivo por trás da ação… Sem prestar atenção no movimento.

    No próximo rascunho da série, vou falar sobre Byung-Chul Han e a “sociedade do cansaço”. Mas por enquanto, vamos focar no convite que Krenak nos faz:

    Faça algo inútil hoje.

    Algo que não vire dinheiro. Que não agregue no seu LinkedIn. Que não seja “desenvolvimento pessoal”. Algo que não tenha nenhum objetivo além de… existir. Aqui vai algumas sugestões:

    • Dance sozinho no quarto sem postar stories.
    • Leia um livro que não vai te “tornar melhor profissional”.
    • Deite na grama e observe as nuvens.
    • Cozinhe algo elaborado só pelo prazer de cozinhar.
    • Tenha uma conversa longa com alguém sem olhar o relógio.
    • Pinte algo, mesmo que você “não saiba pintar”.
    • Cante no chuveiro com toda a potência.

    Dance sua vida pelo prazer de dança-la.

    Porque a vida não é útil, e ainda bem!

    Como disse Krenak, a vida é fruição. É sobre estar presente, não sobre estar produtivo. É sobre ser humano, não sobre ser eficiente.

    E ser humano significa, acima de tudo, ter a liberdade de existir sem precisar justificar essa existência com produtividade, lucro ou “desenvolvimento”. Significa poder simplesmente… ser.

    ● ● ●

    E você? Qual foi a última coisa “inútil” que você fez? Me conta aqui nos comentários! Quero saber se alguém mais tá conseguindo escapar dessa armadilha da utilidade!

    Próxima sexta sai o terceiro rascunho da série sobre a “sociedade do cansaço” de Byung-Chul Han. Até lá, tenta ser um pouco mais inútil, tá? 😉

  • Bem, decidi criar uma série de vídeos no meu Instagram e TikTok para expor alguns pensamentos e reflexões que tenho sobre a vida… A série vai se chamar rascunhos e pretendo lançar pelo menos 9 vídeos curtos testando formatos e temas diferentes. Eles serão lançados nas sextas e na segunda seguinte um post por aqui para estender um pouco as reflexões dele. Topa embarcar nessa comigo?

    Esse primeiro rascunho, chamado de Movimento, propus uma reflexão a partir da famosa frase atribuída a Rosa Luxemburgo:

    “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem.”

    Rosa Luxemburgo foi uma filósofa e economista polonesa-alemã que viveu durante a Primeira Guerra Mundial e se tornou uma das principais vozes contra a guerra, coisa o SPD (Partido Social-Democrata) apoiava. Por conta dessa oposição a guerra, ela foi encarcerada entre 1916 e 1918. Foi durante esse encarceramento que ela escreveu uma série de cartas onde discutia política, literatura, filosofia e também questões pessoais.

    Foi nesse contexto que surgiu a metáfora das “correntes”: como revolucionária e experenciando na prática a privação física da liberdade, ela foi além e trouxe essa mesma ideia de privação física para os âmbitos políticos e mentais. Mostrando como a falta de movimento, seja físico ou intelectual, nos impede de perceber as “correntes” que nos prendem aquela realidade histórica, política e social. Afinal, não somos seres isolados no espaço e no tempo, correto? Todos estamos inseridos em camadas e mais camadas sociais, em um momento da história e em um determinado contexto cultural da nossa época!

    Longe de todo o contexto de guerra mundial que a Rosa Luxemburgo estava vivendo na pele (ou talvez nem tão longe assim quanto gostaria rs), o contexto em que estamos inseridos faz de tudo para que estejamos tão esgotados, seja física ou mentalmente, que o movimento de sequer buscar entender o como e o porque de algo é visto só como cansativo, e não revolucionário.

    Escala 6×1, teatro corporativo, ser “CEO” de si… Tudo já demanda tanta energia. O mais fácil é só aceitar o que está sendo imposto e seguir com a vida. Parece que a esperança de dias melhores morreu no meio da rotina. Claro que, sozinhos, não temos poder para mudar nada dos contextos em que estamos inseridos, mas juntos enquanto classe e sociedade sim! Como disse Odete Roitman nesse remake meia boca de vale tudo:

    Classe operária organizada é a pior coisa, ninguém segura!

    Bem, mesmo saindo de todo esse contexto macro social da estrutura estruturada que alimenta e reforça nossos habitus, como já dizia Bourdieu, e trazendo essa frase para o nosso dia-a-dia vemos que ela também tem bastante poder. As “correntes”, fazendo um paralelo com a psicologia, podem ser lidas como as “crenças limitantes” da psicologia comportamental. Até porque, gastamos bem menos energia ao incorporar aqueles hábitos e pensamentos de que “sempre fui assim” do que procurar entender o que está por trás deles, né?

    O movimento aqui é igualmente importante e pode trazer a superfície nuances da sua personalidade que você nem sabia que existia. Eu, por exemplo, nunca gostei de gravar nada, seja aúdio ou vídeo, porque sempre estranhei minha voz gravada… Mas, agora decidi me movimentar e ver um pouco mais desse meu lado, sentindo o peso dessas correntes que não me deixam emergir. Esse vídeo foi meu primeiro movimento.

    ● ● ●

    Lembra de seguir meu Instagram profissional para ver os próximos vídeos assim que saírem!

    O que achou dessa reflexão? Deixa aqui nos comentários que corrente você já percebeu em si e quais movimentos fizeram ela ficar mais leve!

  • Aprendendo a explorar os mundos que só o Humano revela.

    (Gif Trecho de The Last Of Us / HBO)

    Quem nunca sonhou em ser astronauta?

    Quando criança, os astros sempre me fascinaram, ficava vendo fotos das galáxias na lanhouse perto de casa, explorando as histórias e mitologias por trás das constelações e também já me encantava por ficção científica… Sempre achei fascinante as possibilidades que o infinito do Universo mostra, sabe? A infância passa e o sonho de ser astronauta fica tão distante quanto a estrela mais próxima, mas essa curiosidade e vontade de explorar foi algo que não deixei de alimentar.

    Quando a adolescência foi chegando, meu olhar se voltou para mais perto: na Terra. Me encantei pelas ciências naturais. Física, química, biologia… Lembro que na escola que estudei tinha várias edições da revista “Ciência Hoje para Crianças”, li TODAS e sempre que chegavam mais edições, alugava e DEVORAVA em casa. Nelas vinham alguns experimentos para fazer em casa e tentava replicar, me divertia bastante.

    No meio daquela pressão para escolher uma carreira para o resta da vida que o vestibular coloca nas nossas costas (meio injusto para um adolescente, né?), foi lançado o remake da série “Cosmos”, que ainda não tinha visto nem o original. Fui assistir, claro, e me deparei com a seguinte frase, citada por Neil deGrasse Tyson:

    “Somos uma maneira do cosmos conhecer a si mesmo.” – Carl Sagan

    É meio difícil para a gente, que vivemos alimentando o olhar de que estamos à parte do mundo em que vivemos, entendermos que somos parte dele, né? Parece óbvio, mas o óbvio por estar sempre ali muitas vezes não é percebido, como o ar que a gente respira.

    Enfim, de repente o Universo estava ao meu redor.

    Depois de alguns tropeços acadêmicos pelas engenharias, resolvi dar uma chance para meu lado das ciências humanas e ingressei no curso de Ciências Sociais. Aqui, essa frase ressoou de novo em mim, mas com um novo significado: cada aula, colega, professor, seminário, debate… Foi expandindo mais e mais meus horizontes.

    Cada pessoa, um novo mundo;

    Cada ideia, uma nova dimensão;

    Cada livro, uma nova galáxia;

    Cada cultura, um novo universo.

    Ao me tornar um cientista social, senti que realizei um sonho de infância: virar um astronauta, mas de uma forma um pouco diferente… Em vez do espaço sideral, agora navego por esse imenso e vasto multiverso social que vivemos.

    ● ● ●

    Quis montar esse blog como se fosse a “USS Enterprise” desse explorador recém-formado, para documentar e explorar alguns pensamentos e devaneios… Topa embarcar nessa comigo?